O IMPERADOR VS. O MARECHAL

O IMPERADOR VS. O MARECHAL

O IMPERADOR VS. O MARECHAL

Se a história do Brasil Imperial fosse uma ópera, o dia 15 de novembro de 1889 seria o ato em que o maestro, sem querer, sabota o próprio espetáculo.

O Imperador Dom Pedro II e o Marechal Deodoro da Fonseca não eram inimigos figadais; eram, paradoxalmente, velhos conhecidos unidos por laços de mútua deferência. Deodoro, um herói condecorado da Guerra do Paraguai, trazia no peito uma profunda lealdade à figura do “Velho”, como o monarca era respeitosamente chamado nos bastidores do poder.

O marechal, até as vésperas do golpe, declarava-se publicamente monarquista e afirmava que a República no Brasil seria sinônimo de “desgraça completa”.
O que se seguiu foi uma comédia de equívocos alimentada pelas tensões da Questão Militar e pelo ressentimento dos barões do café pós-Abolição.

Agitadores republicanos, sabendo que Deodoro jamais assinaria a deposição do imperador por livre e espontânea vontade, recorreram a um estratagema ousado: espalharam o boato de que Pedro II havia nomeado Silveira Martins — o arqui-inimigo político (e suposto rival amoroso) de Deodoro — para o cargo de Primeiro-Ministro.

Ferido em seu brio pessoal e político, o Marechal, acamado e debilitado por uma grave crise de falta de ar, ergueu-se para liderar as tropas. Ele acreditava estar derrubando apenas um ministério hostil ao Exército; acabou empurrado pelas circunstâncias — e pela astúcia de Benjamin Constant — a proclamar a República.

Quando a ficha caiu, o drama pessoal superou a glória política. Nos dias que se seguiram, Deodoro recusou-se terminantemente a entregar em mãos a ordem de exílio ao idoso monarca. A justificativa do Marechal, registrada pela historiografia, sintetiza a dolorosa ironia daquele momento:

“Se eu for até lá, o velho chora, eu choro, e tudo estará perdido. Não vou!”

Pedro II partiu na calada da noite para o exílio europeu, carregando um pacote cheio de terra brasileira. Deodoro assumiu a presidência de um regime que ele próprio desconfiava, governando sob constante instabilidade até renunciar dois anos depois. No fim, a queda do trono não foi fruto de um ódio revolucionário, mas sim de uma cirúrgica e irônica armadilha do destino que forçou um soldado leal a destronar o homem que ele de fato, respeitava.

Referências Bibliográficas Consultadas:

CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. (Analisa a transição imperial e as crises institucionais com o Exército).

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. (Discute a construção da imagem de Pedro II e os bastidores psicológicos da queda do regime).

LAURENTINO, Gomes. 1889: Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil. São Paulo: Globo Livros, 2013. (Detalha a farsa da nomeação de Silveira Martins e a reação de Deodoro).

Published by EZIOKWU BU MDU

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