ÂNGELA DE ANGOLA – A MÃE ESQUECIDA DA AMÉRICA NEGRA

ÂNGELA DE ANGOLA – A MÃE ESQUECIDA DA AMÉRICA NEGRA

ÂNGELA DE ANGOLA – A MÃE ESQUECIDA DA AMÉRICA NEGRA

Essa é a história de uma mulher que saiu algemada de Malanje e virou a primeira africana da história dos Estados Unidos. E Angola nunca lhe fez uma estátua.

TUDO COMEÇA COM NZINGA

Era 1619. Em Angola, a Rainha Nzinga Mbandi estava em guerra contra Portugal. Portugal queria capturar gente de Ndongo para mandar para o Brasil e México como escravo.

Numa dessas guerras, no interior de Malanje, soldados portugueses e seus aliados imbamgalas capturaram uma jovem. Devia ter 18, 19 anos. Era alta, forte, bonita. Falava kimbundu. Talvez fosse da família real de Ndongo, talvez fosse camponesa. Ninguém sabe.

Levaram ela a pé até Luanda, amarrada com outros 400. Ficou meses no porão da Fortaleza de São Miguel, esperando navio. Foi batizada à força e recebeu nome cristão: Ângela.

O NAVIO DA MORTE

Em julho de 1619, colocaram ela e mais 350 angolanos no navio São João Batista, do capitão Manuel Mendes. Destino: Vera Cruz, no México. Para trabalhar nas minas de prata.

O navio estava lotado. Gente morrendo de fome, de sede, de doença. No meio do Atlântico, o navio foi atacado por dois navios piratas ingleses: o White Lion e o Treasurer. Os piratas não queriam ouro. Queriam escravos.

Roubaram 60 angolanos do São João Batista, incluindo Ângela. E levaram para a colônia inglesa da Virgínia, na América do Norte, que naquela época tinha só 12 anos de existência e precisava de mão de obra.

CHEGADA EM JAMESTOWN – AGOSTO DE 1619

No final de agosto de 1619, o White Lion atracou em Point Comfort, Virgínia. O governador da colônia trocou comida por esses 20 e poucos africanos.

Eram os primeiros africanos na América do Norte inglesa. E entre eles, uma única mulher registrada: Angelo.

Nos papéis da colônia, escreveram: Angelo, uma negra, chegou no White Lion.

Ela foi comprada pelo Capitão William Peirce, o homem mais rico de Jamestown. Ele tinha uma casa grande, plantação de tabaco.

O QUE ACONTECEU COM ELA DEPOIS?

Aqui a história fica comovente. Diferente do Brasil, na Virgínia em 1619 ainda não existia escravidão para toda a vida. O sistema era de servidão por contrato. Você trabalhava 4 a 7 anos e depois ficava livre.

Ângela trabalhou na plantação de tabaco de Peirce. Aprendeu inglês. Aprendeu a cozinhar comida inglesa com tempero angolano. As outras mulheres inglesas gostavam dela porque ela sabia fazer remédio com ervas, sabia partejar, sabia curar. Era conhecimento de Angola.

Em 1624, fizeram um censo. No censo, Ângela ainda aparece: Angelo, serva do Capitão Peirce. Em 1625, aparece de novo, agora morando sozinha, mas ainda trabalhando.

Depois disso, o rastro dela some. Mas historiadores encontraram que ela se casou com um outro angolano chamado John, também do São João Batista, e teve filhos. Esses filhos foram os primeiros negros nascidos livres na América, com sangue puro de Angola.

Por que a história dela é importante?

  1. Porque ela prova que a América negra nasceu angolana. Os primeiros 90% dos escravos que chegaram na Virgínia entre 1619 e 1700 eram de Angola. O inglês que os americanos pretos falam, o blues, o jazz, tem raiz no kimbundu que Ângela falava.
  2. Porque ela representa todas as nossas mães que foram levadas. Enquanto Diogo Cão tem estátua em Luanda, Ângela de Angola, que sobreviveu a três navios negreiros, a piratas e ao frio da Virgínia, não tem nem uma rua com seu nome em Angola.
  3. Porque em 2019, quando a América fez 400 anos da chegada dos primeiros africanos, o presidente americano e o governador da Virgínia foram até Jamestown homenagear Ângela. Fizeram estátua dela. E nenhum presidente angolano foi.

Ângela morreu velha, provavelmente livre, na Virgínia. Nunca mais voltou para Angola. Mas o sangue dela corre hoje em milhões de afro-americanos. Quando você vê um americano preto com nome Jackson, Johnson, muitas vezes é descendente dela.

Ela saiu de Luanda acorrentada. Chegou na América como mercadoria. Mas virou mãe de uma nação.

E nós esquecemos o nome dela.

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Published by EZIOKWU BU MDU

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